quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Karen Dalton - In My Own Time (1971)


              Olá! Fui convidado recentemente a participar desse blog, e aqui está meu primeiro post: Karen Dalton – In my own time.
             Foi díficil escolher um primeiro albúm para postar aqui: tantas possibilidades, tanta coisa para ser mostrada, mas deixei o coração escolher e esse disco toca fundo na alma.
            Karen Dalton é uma cantora, violonista e banjoísta folk, nascida no Oklahoma, em 1937, e que ficou “famosa” em Nova Iorque, nos anos 60, junto com a turma do Greenwhich Village.
            Chegou lá em 1961, com uma filha pequena, sem muito dinheiro; e com seu violão e sua voz passou a fazer parte da cena que lá acontecia. Dividiu palco com Bob Dylan, Fred Neil, entre outros que lá se apresentavam. Sua voz é muitas vezes comparada com a de Billie Holiday (embora não gostasse dessa comparação), algo como uma versão rural da cantora de jazz. Uma voz que retrata o sofrimento que viveu, suas dores, seus vícios e com um timbre bastante peculiar.
            Ela não gostava de estúdios, nem de shows muito grandes, seu lance eram os shows pequenos, coisas intímas, com os amigos. E pelo fato de só tocar covers e versões,  e ter uma voz que não era bem reconhecida pelo público, seu primeiro disco foi gravado apenas em 1969 (It's So Hard to Tell Who's Going to Love You the Best), embora fosse conhecida desde o começo da década. Mas deixemos esse aí para um futuro post.
            In My Own Time foi gravado e lançado em 1971, quem produziu e arranjou ele foi Harvey Brooks, e para quem não sabe (como eu não sabia), ele foi o baixista do Bitches Brew, de Miles Davis; do Highway 61, do Dylan e do Mixed Bag, do Richie Havens: coisa séria. Esse disco é muito bem feito, com começo, meio e fim, um pouco de blues, um pouco de folk, um pouco de soul, um pouco de tudo. “Something On Your Mind”, primeira faixa do é uma música folk que beira o psicodelismo, começando com um baixão grave, entrando logo em seguida as cordas e a bateria, criando o clima para a entrada da voz melancólica de K.D. Toda vez que ouço essa música fico arrepiado, ela toca em algum lugar que não sei direito como lidar. Um amigo meu disse que a mãe dele chorou ao ouvir essa música pela primeira vez, depois de lhe apresentar o disco.
             A segunda faixa é uma versão de “When a Man Loves a Woman”, uma baladinha-soul-romantica (e a melhor que já escutei até hoje). Mas tem de tudo por aqui: “How Sweet It Is” e “One Night of Love” são alegres e dançantes, com uma pegada soul; não tem como não mexer o corpo, balançar a cabeça ou menos bater o pé marcando o ritmo. “Katie Cruel” e “Same Old Man” são mais tristes, mais pesadas, sendo a base delas o banjo e não mais uma banda arrumadinha.
“In My Own Dream”, “In a Station” e “Take Me” são músicas mais tranquilas e leves, com um certo balanço, mas incríveis do mesmo modo que todas as outras. A última faixa “Are You Leaving For The Country” é a que melhor podia fechar esse disco, um pouco saudosista, um pouco triste, um pouco alegre, é uma música que te deixa tranquilo, para seguir por aí.
              Lançou apenas 4 disco em vida, e em 2012 saiu um novo disco, 1966, gravado em sua casa, onde um amigo de seu marido levou um gravador e fez uma sessão de 14 músicas, algumas solo, outras acompanhadas do marido. “Sweet Mother K.D.”, como é muitas vezes referida, teve sérios problemas com drogas e bebidas, somando isso à uma carreira de poucos discos, teve uma vida bem dura, chegando até à ser moradora de rua, falecendo em 1993, depois de anos 8 lutando contra AIDS.
Uma prévia do que pode ser esse disco: Something on Your Mind, com direito à um vídeo bacana-bacana dos anos 50, ou 60 ou 70.

Faixas (como se tratam de versões, coloco aqui os seus autores):
1.      Something on Your Mind (Dino Valenti)
2.      When a Man Loves a Woman (Calvin Lewis, Andrew Wright)
3.      In My Own Dream (Paul Butterfield)
4.      Katie Cruel* (arranjado por Karen Dalton)
5.      How Sweet It Is (To Be Loved by You) (Lamont Dozier, Brian Holland, Eddie Holland)
6.      In a Station (Richard Manuel)
7.      Take Me (George Jones, Peon Payne)
8.      Same Old Man* (arranjada por Steve Weber)
9.      One Night of Love (Joe Tate)
10.  Are You Leaving for the Country (Richard Tucker)
           
*Músicas tradicionas americanas, de autoria desconhecida.

Isso aí! Espero que gostem. O link para download está no comentários.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sarband - Satie en Orient (2005)


Não sou muito de começar abrindo parênteses, mas a Ensemble Sarband que me perdoe: são todos talentosíssimos músicos, de competência inquestionável, mas não é possível falar desse álbum sem antes discorrer um pouco a respeito do sujeito que compôs todas as peças nele executadas: Éric Alfred Leslie Satie, vulgarmente conhecido por Erik Satie.

Abre parênteses, portanto.

Francês filho de mãe escocesa, Satie viveu em fins do século XIX e é considerado um dos grandes expoentes do impressionismo musical, do minimalismo e é corriqueiramente lembrado como um sujeito excêntrico, misterioso e com um peculiar senso de humor.

O caráter pitoresco de Erik Satie começou a ser traçado em sua infância: após perder a mãe aos 7 anos, foi morar com o tio, um boêmio parisiense e, em meio aos boulevards e cabarets da Cidade-Luz, como bom auto-didata que era, aprendeu rapidamente a tocar piano. Se engana quem pensa que o ambiente fez do rapaz um completo doidivanas: apesar da postura irreverente e de sua excentricidade, o músico francês sempre teve um trabalho caracterizado pela sonoridade organizada e sóbria, mas ainda assim carregada de emoção. Foi nos idos de 1888 que, tocando seu piano nos cabarés de Montmarte, - a destacar o famoso Chat Noir - Satie ganhou notoriedade dentre os compositores e apreciadores de música em Paris e, desde então, sua importância na história da música só cresceu. Se tornou amigo e influência de pessoas como Debussy (que chegou, inclusive, a orquestrar as famosas Gymnopédies, peças mais conhecidas de Satie) e Ravel, trabalhou com Picasso e Jean Cocteau na criação do ballet Parade - considerado por muitos a primeira manifestação de surrealismo nas artes - e ainda se relacionou com gente do Dadá, com quem produziu coisas excepcionais. Sem falar, é claro, que foi mentor do notável Groupe des Six e um dos homens a plantar as primeiras sementes para o nascimento do jazz, criando o ragtime.

O que esperar de um músico como esse, portanto? Sinfonias, óperas? Não. Erik Satie sempre prezou - e isso causava o maior espanto na época - pelo o retorno à simplicidade e aos modos arcaicos característicos das músicas gregas, bizantinas, góticas e medievais em suas composições. Nas mãos do francês de semblante bizarro, os pianos choravam lamentos dignos das viúvas de soldados espartanos, expunham aflições que haviam se perdido entre jardins e templos babilônios e resgatavam memórias destroçadas na poeira das ruínas dos impérios bizantinos. Dentre seus trabalhos mais conhecidos, as já citadas Gymnopédies (que não deveriam ser tocadas nem em adagio, nem allegro, nem andante, nem presto. As partituras diziam somente "lent et douloureux", "lent et triste" e "lent et grave". Não é necessário dizer que a atmosfera é exatamente essa, não é mesmo?) e as Gnossiennes, que conseguiram explorar ainda mais o flerte de Erik com o oriente. Com o tempo, seu trabalho acabou por adquirir duas vertentes: o humor musical (com coisas como Pièces froides, Pour un Chien etc.) e um namoro ainda maior com os vestígios musicais do Oriente. Sua associação com a Ordem dos Rosacrúcios o aproximou ainda mais da sonoridade dos bizantinos e as Danses Gothiques e as Trois sonnieries de la Rose-Croix são frutos vivos e maduros disso.

Satie não viveu pouco, mas ainda assim morreu jovem: faleceu aos 59 por conta de cirrose (é, gente, uma hora a conta da cerveja acaba chegando...) e deixou um legado importantíssimo para a música moderna. Criou a música ambiente, foi um dos pais do surrealismo e ainda resgatou tradições que há muito haviam se perdido. Para não falar nem a metade do que ele fez.

Fecha parênteses.

Agora sim, posso falar do Sarband! O conjunto, que surgiu na Alemanha em 1986, tem como grande proposta a ponte entre a música oriental e a ocidental. Grande parte do seu trabalho consiste em traduzir - com muita competência, diga-se de passagem - grandes sons eruditos em ritmos arábicos. Lançado em 2005, o álbum Satie en Orient é uma brilhante prova da competência desses músicos que, por sinal, vêm de sete nações diferentes. Para as composições de Erik Satie, o alaúde, o kementché (espécie de violino), o qanoun (cítara do oriente-médio) e os cornes arábicos caem como uma luva. O esforço e as pesquisas da Sarband em reencontrar as raízes da sonoridade do francês foram tão excepcionais que não há como passar em branco por um disco desses. Desde o primeiro choro vindo das cordas arqueadas na Gnossienne nº1, dá pra perceber o quanto o material é diferenciado. Além de todas as composições já citadas anteriormente, gostaria de destacar também as redenções de Chanson (esta, inclusive, com uma irreverente "assobiadinha" que deixaria Satie bem contente), Chanson Médiévale, Élegie, Les Anges e Hymne, todas pertencentes na série de composições baseadas em poemas de Contamine de Latour. A beleza é incomensurável.

Melhor ouvir e entender do que ler descrições. Em tendo a oportunidade e uma hora para se dedicar à degustação dessa fina peça, faça-o. Seria a mesma coisa que dar uma banda com o velho Erik pelos mercados de Istambul. Acredite: tanto ele quanto você achariam muito bacana.

Faixas:
1. Gnossienne nº1
2. Gymnopédie nº1 (lent et douloureux)
3. Gnossienne nº3
4. Chanson
5. Prélude d'Eginhard
6-8. Trois sonneries de la Rose-Croix:
(6. Air de l'Ordre
7. Air du Grand Prieur
8. Air du Grand Maître)
9. Élegie
10. Gnossienne nº5
11. Les Anges
12. Gymnopédie nº3 (lent et grave)
13. Danse gothique nº3: En faveurs d'un malhereux
14. Chanson Médiévale
15. Uspud Ballet Chétrien
16. Hymne pour le "Salut Drapeau", Prose extraite du Prince de Byzance de Joséphin Péladan

O link está nos comentários, meu povo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Infernal Noise Brigade - Vamos a la Playa (2003)

Infernal Noise Brigade - Vamos a la Playa
                
               Mesmo pra bom entendedor, o minuto e meio da introdução não basta: é uma mensagem da polícia mexicana informando que se inicia formalmente o processo que tem como objetivo garantir a tomada de decisões adequadas durante o encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC, em inglês WTO) em Cancún, no ano de 2003. Vire à esquerda e o disco começa. 
               Quem toca é (a multidão e) a Infernal Noise Brigade (INB), que viajou para lá durante esse encontro da OMC e fez, registrando parcialmente nesse disco, algo muito distinto de uma viagem cara de formatura ou de uma estada num hotel de luxo com tudo incluso. Tocou junto com as manifestações de rua que se opunham ao movimento de globalização, em parte do que foi chamado de “movimento anti-globalização”, também marcado por manifestações contra o Fundo Monetário Internacional (FMI) e contra o Banco Mundial, entre outros ícones defensores do capitalismo. [Quem quiser conhecer mais sobre esse movimento, sugiro a leitura do “Urgência das Ruas”, fácil de ser achado na internet afora.]
               Não é possível perder de vista a perspectiva política do grupo ao ouvir o álbum; a própria escolha desse espaço – e o momento, claro – das apresentações e de gravação partem dessa visão. Assim como as letras e instrumentos, que utilizam algumas vezes elementos de culturas consideradas de resistência, resultando em uma sonoridade distinta, algo balcânica e oriental. Apesar de ser uma banda de rua e utilizar instrumentos similares as fanfarras militares, proporcionam no geral um som e possibilidades de ação política extremamente diferentes desse “tio reaça”- pra começo de conversa, sai um som bem mais interessante.
               Esse quê balcânico marca presença em diversas faixas, como a segunda, Praha, em que também se pode perceber as viradas e convenções típicas de fanfarras que tocam nas ruas. Outra faixa em que é clara essa influência balcânica/oriental é Nagarawalla e a seguinte, Ja Helo. A melodia e as letras cantadas pela banda nessas 3 músicas arrastam o som pra esse lado de lá do meridiano de Greenwich, com uma ajuda dos instrumentos que utilizam: pessoalmente, acho que o uso que a INB faz dos pratos ajuda a engrenar por esse caminho.      
               Assim como outras baterias, o som que a INB faz se caracteriza por usar também as vozes dos próprios integrantes amplificadas por uma espécie de alto-falante ou megafones, sendo praticamente um tipo de instrumento. Com esses aparatos de timbre muito característico cantam letras e palavras de ordem das mais variadas. No caso da INB, são quase que completamente impossíveis de entender: nas músicas que já citei não consigo entender nadica É só em Ou Est la Libertè  que consigo entender uma frase, do refrão; em Down Down WTO entendo que se diz o nome da música mas não o que se diz depois. Falando em Ou Est la Libertè, acho que essa é a faixa mais ocidental do álbum, com as letras (teoricamente) em francês e melodia mais "tradicional". O megafone entra e reforça o "tempero" da faixa,  pra cá daquele meridianozinho, além de dar uma variada na melodia dos metais. Isso ocorre de maneira geral nas músicas em que há a participação de voz amplificada: a diferença é que em algumas o som é empurrado bem pro oriente.
               Diga-se de passagem que a melodia costuma ser algo simples, bem rumo ao popular, as palavras de ordem e cantos seguem essa fórmula também: o foco claramente não é uma experimentação, dodecafonismo ou piração virtuosística. Enquanto essa parte é explorada pelos megafones e metais, a parte rítmica é segurada bem pelos instrumentos da percussão. Eles articulam muitas viradas ao longo da música, quebrando essa certa monotonia da cozinha de baterias e deixando, pelo menos pra mim, as faixas um pouco mais interessantes e bonitas, além de me surpreender em alguns casos com o caminho que umas viradas tomam. O uso de efeitos criando colagens sonoras é bem interessante, e o timbre de voz megafonada é algo único e que me capturou faz tempo.
               A participação da multidão é clara e domina algumas faixas do disco, como Down Down WTO e Km Cero (i) e (ii) . Km Cero (i) é uma colagem de falas dos atos de Cancún – destaco aqui que se diz principalmente “(...) A luta segue, segue! EZLN, EZLN![Exército Zapatista de Liberação Nacional]”, com uma fala da polícia mexicana depois. Dá pra ouvir nessas faixas também os efeitos sonoros que a INB usou, criando uma espécie de mosaico sonoro com o som da bateria e os sons ambientes de um ato dessa magnitude, como gritos nos finais das músicas e mensagens da polícia. Além de criar transições de faixas em que a multidão se faz mais presente para outras em que a presença da banda é maior - como de Km Cero (i) para Hamaq. Essa e Kyoto Dischord são regravações de faixas presentes em outro excelente álbum da mesma banda, chamado Insurgent Selections for Battery and Voice. A INB, apesar de não trabalhar tanto o peso da multidão em suas músicas, como outras diversas fanfarras gringas, leva a voz em consideração. Exemplo é o nome de seu primeiro disco.
               O Vamos a la Playa é um exemplo de atividade política e música que saiu do enclausuramento estético e político que é presente em boa parte dos grupos tanto à direita quanto à esquerda, junto com outros movimentos concomitantes, como o "movimento anti-globalização" e, bem mais importante, o EZLN. Vai ainda além de uma mudança puramente "2.0", somente estética, de alguns desses grupos, defendendo uma mudança num aspecto mais amplo. Exemplo disso é a canção que encerra o álbum, La Andina, que possui uma linda melodia. Foge de incorrer na breguice-por-breguice de canções de protesto à la caminhando e hinos de entidades mil por esse mundão afora, com a INB dando um gás com seus pratos, tambores e metais. Também fugiu do rótulo de música-de-protesto-tipo-punk, com o som pesado e distorcidos, aqui é mais na base da sutileza, dos swings e balcãs.
               Difícil destacar faixas aqui, acho que vale a pena ser ouvido por inteiro - inclusive o samba diferente e "errado" que é Bloco Fogo - e é uma experiência intensa. Obviamente importantíssimas são as faixas curtinhas sem música, que dizem muito da fanfarra. Em resumo, acho que o que fica desse disco é esse re-movimento, como o que ocorre na última música, e essa experiência musical fortíssima, descrita pela INB em seu site como "INB vs OMC, parte II". E também umas frases do disco - aí vai de cada um pra cada um mas acho sensacional o que vem no final de La Andina: “vamos a la playa, ô-ô-ôôô”!


Faixas:
 
1-Introduction
2-Praha
3-Goat Eyes

4-Ou Est la Liberte
5-Down Down WTO
6-Kyoto Dischord
7-Nagarawalla
8-Ja Helo
9-Km Cero (i)

10-Hamaq
11-Km Cero (ii)

12-Bloco Fogo
13-La Andina


Download nos comentários. Minha participação anterior no saqueando envolveu a postagem de um disco liderado por um imbecil quasi-fascista. Agora, no aniversário desse renascente blog, dou um presente que ele merece!

domingo, 6 de janeiro de 2013

The Chocolate Watchband - The Inner Mystique (1968)


No dia do aniversário de 5 anos do Saqueando a Cidade (rapaz, quanto tempo, hein?), nada como comemorar com velhos conhecidos, não é mesmo? A bola da vez é o The Inner Mystique, álbum da Chocolate Watchband lançado em 1968, um ano depois da estreia do grupo com No Way Out.
Expoentes do rock psicodélico de garagem da Califórnia, o conjunto trazia consigo várias influências que ficaram caracterizadas em sua sonoridade, sendo que o blues e o soul predominavam na maioria de suas canções. O disco, que foi posto à venda nas lojas numa época em que a criatividade no cenário do rock florescia à torto e à direito, se destacou dentre os demais pelo diferenciado tempero oriental que algumas músicas acabaram recebendo (graças às cítaras e sopros no lado A do vinil), pela bela - e tanto quanto dadaística - arte de capa e, é claro, pela competência dos músicos em produzir um som que fosse mais do que somente um rock de garagem com claras características da cena de São Francisco. Pelo bom humor também, diga-se de passagem: a contracapa do vinil trazia agradecimentos a pessoas inesperadas, como "Mark Twain", "Alice of Wonderland", "King Henry IV", "Bilbo Baggins", "Gandalf", "Wolfgang Amadeus Mozart" e por aí vai...
Das oito faixas da obra, somente duas, Voyage Of The Trieste e Inner Mystique, compostas pelo produtor do grupo, Ed Cobb, são originais. Ambas integram a primeira parte do álbum, caracterizada por sons que remetem a um transcendentalismo similar ao dos Beatles com Tomorrow Never Knows ou ao dos Stones com Gomper. Aliás, por falar nos Beatles e nos Stones, é nas versões - muito boas, por sinal - de outras bandas que algumas influências ficam evidentes. Enquanto In The Past, canção do We The People, lembra muito o estilo dos garotos de Liverpool, I'm Not Like Everybody Else (gravado pela primeira vez pelos Kinks e depois por mais uma boa renca de gente - dentre eles o Sacred Mushroom, que também tem disco aqui no Saqueando) poderia muito bem ter sido cantada por Sir Mick Jagger.
Fechando o conjunto de belas homenagens feitas pelos músicos californianos, há Medication, dos Standells, em uma pegada bem blues-rock; Let's Go, Let's Go, Let's Go, de Hank Ballard & The Midnighters; uma versão um pouco mais densa de Baby Blue, do eterno Dylan e, para encerrar com estilo, uma explosão de psicodelia e agressividade proto-punk na redenção de I Ain't No Miracle Worker, dos igualmente garageiros Brogues.
O fato de serem escassas as composições próprias não torna o disco menos interessante, muito pelo contrário: a audição é até que bem agradável e deve animar os fãs mais ferrenhos dos bons Nuggets sessentistas. Diferentemente do que pode parecer, não é mais do mesmo. O Chocolate Watchband foi suficientemente eficiente para dar uma nova cara àquilo que poderia parecer batido - e isso é um mérito. Não vou dizer que supera o No Way Out, mas, mesmo assim, continua sendo um discão que vale a ouvida.

Faixas:
1. Voyage of The Trieste
2. In The Past
3. Inner Mystique
4. I'm Not Like Everybody Else
5. Medication
6. Let's Go, Let's Go, Let's Go
7. Baby Blue
8. I Ain't No Miracle Worker

Links nos comentários, povo.
E parabéns pro Saqueando!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ar Skloferien - Folk Celtique (1973)


Já falamos a respeito da cidade bretã de Nantes, que fica no noroeste da França, aqui no Saqueando. Foi de lá que surgiu o grupo folk Tri Yann, conforme comentamos num post bem recente. A charmosa cidade - que já foi capital de importantes tribos gaulesas - é um rico polo cultural, principalmente em se tratando de música folclórica. E, nesse cenário de raízes musicais e de folclore muito ricos, surge, também, o Ar Skloferien. Inspirados pelos antigos bardos e trovadores que vagavam pela região num passado distante, os músicos franceses fazem um som similar ao de seus conterrâneos supracitados, porém com um pé um pouco maior dentro da cultura celta. Seu som se caracteriza pelas harmonias vocais impecáveis e pela presença forte de instrumentos tradicionais como a pennywhistle, o banjo e o bouzouki, que é uma espécie de bandolim oriundo da Grécia.
A trajetória do grupo é tanto quanto obscura: noves fora os dois únicos discos gravados pelo conjunto (este que cá se apresenta e um lançado no ano de 1974, Keltia), a única informação sobre eles que consta nos registros é que, depois de uma rápida dissolução, se reestruturaram e, sob o nome de Sklof, lançaram um disco chamado Folk Celtic. Bem se vê - cá entre nós - que o que sobrava de talento para recitar e reproduzir belas canções medievais faltava em criatividade para dar nome aos discos do grupo. Sorte a nossa que o segundo fator em pouco ou nada influi para a degustação auditiva dos álbuns, muito embora seja capaz de causar certas panes para os que tentarem indexar a obra - mas isso é problema dos burocratas. Oras, chega de digressão! Voltemos ao assunto principal.
O primeiro trabalho do grupo, Folk Celtique, traz uma série de releituras e de rearranjos de danças - gavotas, an dros (vulgarmente conhecidos por voltas no português lusitano e/ou tupiniquim), baladas... - e de canções de batalha, bebedeira e qualquer outro tipo de entretenimento profano e pagão, para deleite do ouvinte, evidentemente.
Numa toada alegre, o disco tem seus altos e baixos em termos de agitação: a primeira faixa, Gavotte a Deux Violons, é um convite para o camponês tímido se levantar e se entregar aos deleites de uma festa regada a hidromel, vinhos, pandeiros e violinos. Há, é claro, um momento ou outro para respirar e se contemplar a grama e sentir o vento no rosto, como em Koster C'hoad, mas nunca é demais lembrar que os gauleses sempre foram muito convidativos em suas festividades e músicas como Les Petits Moutons, Highland Harry e When I Was Single são capazes de fazer qualquer lavrador cansado pedir para encher o copo de ale mais uma vez. Há que se destacar a belíssima Gwin Ar C'hallaoued que, dentre tantos brados e batidas, é uma das mais belas e singelas odes ao vinho que este que vos fala já teve a oportunidade de escutar. Não dá pra deixar passar batido, também, An Dro e Gavotte Ar Menez, duas instrumentais cujas flautas são de arrancar lágrimas dos olhos até do mais bruto dos bárbaros.
Num compto geral, não dá pra dizer que se trata de um som inovador ou de outro mundo, principalmente para quem já está com os ouvidos acostumados ao folk do norte da França. Mas, por outro lado, é uma coletânea interessantíssima de músicas muito bonitas e sublimes. E isso é inegável. Qualquer um com mais ou menos quarenta minutos livres deveria dedicá-los a escutar esse disco. Garanto que a chance de se arrepender não existe.

Faixas:
1. Gavotte A Deux Violons
2. The Ballad of Father Gilligan
3. Am Amzer Dremenet
4. Koster C'hoad
5. The Barnyards of Delgaty
6. Les Petits Moutons
7. Cwin Ar C'hallaoued
8. An Dro
9. Highland Harry
10. Gavotte Ar Menez
11. When I Was Single
12. Gavotte D'Honneur De Plougastel Daoulas

Link nos comentários.