segunda-feira, 12 de maio de 2014

Fela Kuti - Expensive Shit (1975)




Continuando um pouco na pegada Funks-da-Nigéria, decidi postar esse disco do Fela, que é da mesma época retratada pela coletânea Nigeria Disco Funk Special (último post), uma época de ouro para uma (contra-) cultura que foi se desenvolvendo na Nigéria.

“Expensive Shit”, uma merda cara. Além do nome do disco, uma bela história, devo dizer. Esse é um dos discos que mais gosto do Fela e é sempre bom saber da história por trás de tal produção: uma luta política com o intuito de prender, mais uma vez, Fela Ransome Kuti.

Na década de 70, Fela tinha acabado de voltar dos EUA, após ser expulso por conta de problemas com seu visto. Após jam sessions com os J.B's, e contato com a literatura e cultura dos panteras negras e movimentos negros voltava para casa com uma grande bagagem de novas influências. (Re-) fundou a banda Africa 70 (na verdade apenas renomeou-a), e fundou a Kalakuta Republic, um espaço para os músicos e suas familias morarem, fazerem festas, além de ser um estúdio também (eles tinham até clínicas de saúde de graça lá dentro!). Frente essas movimentações de Fela, o Estado nigeriano não estava muito “feliz”: se tratava de um período de repressão e opressão política, e Fela era uma figura de grande importância para a contra-cultura, para os movimentos socias que estavam acontecendo, assim como um importante ativista: uma figura de grande prestígio social e político.

(Uma curiosidade que acho interessante é que nessa época Fela declarou a Kalakatu Republic como sendo não mais pertencente ao Estado da Nigéria, e sim um espaço independente e autônomo).

Qual a melhor forma que a polícia achou para incriminar ele? Colocar um baseadão (um cigarro de maconha), e pegar ele no flagra. O que deu errado? Antes de a polícia chegar, Fela conseguiu engolir tal baseado, sendo então detido até que a substância fosse expelida por seu corpo. De alguma forma ele conseguiu que sua merda saísse “limpa”, sendo então liberado. Li por aí que, de alguma forma muito misteriosa, ele conseguiu que levassem as fezes de um colega seu ao invés de suas próprias. Após o episódio (e dando origem ao nome do disco) Fela declarou que sua merda era uma “merda cara” (expensive shit).

Gravado e lançado em 1975, com apenas duas faixas Expensive Shit/ Water No Get Enemy é um disco muito foda. A primeira faixa, com um tempo mais “para frente”, começa com uma guitarra muito swingada, que se mantem a música inteira, sem perder a compostura. Junto dela, começam também o que acredito ser um chocalho e um pedaço de madera sendo batido com um ferro (que também se mantem ao longo da música inteira). Rola uma pequena intro de piano elétrico e tambor, e logo entra o resto da banda: impossível de ficar parado.
Continuam rolando uns solinhos de piano eletrico até a entrada do naipe de metais: um êxtase, uma explosão, não sei direito. Um arranjo muito bem feito, que mantem a influencia da música norte-americana, sem perder a sonoridade característica da música nigeriana.

É meio nessa pegada que a música segue, com alguns solos de metais, alguns outros de piano elétrico, até que com um grito, parecendo até meio “desajeitado”, no susto, Fela da voz a sua luta política. Devo confessar que ainda não sei direito do que fala, pois, como se trata de um dialeto chamado Nigerian Pidgin, uma mistura do inglês com um dialeto creole, não consegui entender tudo que é dito.

Water No Get Enemy já é uma música mais “sussa”, mais “poética”, mas, mesmo assim, sem perder o balançado. A música, ao contrário da outra, já começa com todos os elementos/instrumentos sendo apresentados: um belo “riff”de metais e um pianinho elétrico de matar. Segue então para um refrão, e depois solos. É mais ou menos essa a estrutura da música, não por isso deixa de ser menos interessante, ou importante, ou foda.

Faixas:
  1. Expensive Shit
  2. Water No Get Enemy
(Ambas de autoria de Fela Ransome Kuti).



Link para download nos comentários, e até a proxima!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nigeria Disco Funk Special: The Sound of The Underground Lagos Dancefloor 1974-79


“Lagos, Nigeria, 1974-79: A capital Funk & Disco de todo o Oeste da Africa. Mais clubes noturnos, bares, “picos” (spots) e pistas de dança do que qualquer outro lugar desde Dakar até Kinshasa. O único estúdio com gravação 24 canais, misturado com mais Dj's, Discos e Compactos norte-americanos que qualquer outra vizinhança”

Nigeria Disco Funk Special é uma coletânea lançada em 2008, que busca representar uma cena marcante na história do oeste da África. O crescimento e expansão da cidade de Lagos, a busca pela “sorte grande”, a oferta de empregos, a verticalização e urbanização cada vez mais vorazes: uma metrópole. Tudo isso misturado com uma cena efervescente: clubes noturnos, festas, bares, estúdios, Dj's, discos (e compactos) importados e muito funk.
A influência de James Brown se faz presente em diversas músicas, como por exemplo Take Your Soul - faixa que abre o disco -, You've Gotta Help Yourself, Will Of the People Some More. Lagos City apresenta um alto teor de Blaxpoitation. Ijere é uma música que eu colocaria como sendo mais próxima de um reggae/dub, por conta de ser mais “para trás”, mais “solta”.
Algumas das músicas são instrumentais, outras possuem letras em inglês, e até em Ewondo (uma língua do povo Beti-Pahuin, de Camarões) – Mota Ginya – faixa que fecha o disco. Love Affair é uma mistura mais tranquila, com um cowbell que se faz presenta a música toda, com muito swing. Greetings é uma música na pegada funk norte-americano, só que com um leve toque psicodélico.
Resumindo: trata-se de um disco duplo, com guitarras cheias de wah-wash e delays, baterias e baixos cheios de muita pressão swing e naipes de metais incisivos, prontos para animar suas festinhas, seu caminho de volta pra casa, e o que mais você quiser agitar.

Vale ressaltar que esse disco faz parte de um trio de coletâneas desse período: um retrata a cena de rock psicodélico – Nigeria Rock Special: Psychedelic Afro-Rock & Fuzz Funk in the 70s Nigeria. E a outra: Nigeria Special: Modern Highlife Afro-Sounds Nigerian Blues 1970-6. Todas lançadas pelo selo britânico Soundway Records. Mas isso fica para um outro post.

Faixas:
  1. Take Your Soul – The Sahara All Stars
  2. You've Gotta Help Yourself – Bongos Ikwue & The Groovies
  3. Will Of The People – T-Fire
  4. Love Affair – S-Job Movement
  5. Greetings – Johnny Haasatrup
  6. Lagos City – Asiko Rock Group
  7. Ijere – Dr. Adolf Ahanotu
  8. Some More – Jay-U Experience
  9. Mota Ginya – The Voices of Darkness
Link para download nos comentários,
Abraços e até a próxima!




sábado, 4 de janeiro de 2014

Pat Metheny - The Orchestrion Project (2013)


Considerado uma lenda viva do jazz, o guitarrista estadunidense Pat Metheny dispensa grandes apresentações. Nascido no Missouri em 1954 e, sob a tutela do húngaro Attila Zoller, levado desde cedo a frequentar apresentações de artistas como Jim Hall e Ron Carter, o jovem Pat rapidamente pegou o espírito da coisa e começou a se destacar no meio, até fazer sua primeira gravação profissional em estúdio com ninguém menos que Jaco Pistorious. Daí pra frente foi um estouro: o músico decolou no mundo do jazz , do fusion e do bop e lançou maravilhosas obras como Offtramp, Imaginary Day, Like Minds (gravado com Chick Corea, Dave Holland, Gary Burton e Roy Haynes) e, mais recentemente, o aclamadíssimo álbum Unity Band. Metheny também é conhecido por seu violão de estimação, o Pikasso I de 42 cordas que, diga-se de passagem, tem um som incrível, como é possível ver no vídeo abaixo:



Aliás, criatividade e instrumentações espalhafatosas sempre foram características muito fortes de Pat. Tanto é que, nos idos de 2008/2009, começou a trabalhar num projeto que, segundo o próprio, tinha em mente desde que tinha 9 anos de idade: a criação de um grande Orchestrion, que nada mais é do que um grande organismo mecânico capaz de tocar instrumentos conforme uma programação pré-determinada (e, mais tarde aprimorado, capaz de acompanhar o músico e seguir uma improvisação, por exemplo). Dentre os instrumentos robóticos, estão pianos, marimbas, vibrafones, sinos de orquestra, baixos, guitarras, percussão, garrafas e teclados. Agora... Ninguém melhor que o próprio Metheny para explicar como todo esse mecanismo funciona, não é mesmo?



Enfim... Construída a sua orquestra de robôs amestrados, só restava ao virtuoso sentar e fazer o que ele melhor sabe: música. Em 2010, lançou Orchestrion, um album de estúdio muito bem visto pela crítica como um experimento de jazz fusion e uma elevação do conceito de "banda-de-um-homem-só" à enésima potência. Juntamente do disco, Pat Metheny gravou, sob a direção dos irmãos Pierre & François Lamoureux, The Orchestrion Project (lançado em 2013), uma incrível performance onde o guitarrista, solitário e introspectivo, conduz magistralmente uma sinfonia robótica na antiga igreja abandonada de St. Elias (a propósito: as imagens são maravilhosas e eu recomendo a todos que tiverem a oportunidade: vejam o filme pelo menos uma vez).

A trilha sonora da apresentação foi lançada junto com o filme e é uma obra-prima! O disco duplo contém aproximadamente duas horas de improvisações delirantes e canções bem conhecidas de seu repertório, como Unity Village, Antonia e Sueno con Mexico, todas brilhantemente acompanhadas pela sinfonia artificial de Metheny. Além disso, o álbum também conta com a Suite Orchestrion, especialmente escrita para ser executada junto com as máquinas. É um álbum muito denso e pode ser um pouco cansativo para quem não tem o ouvido acostumado a longas improvisações e ao virtuosismo do fusion. De qualquer forma, é de encher os olhos de qualquer fã de jazz: a música é de uma qualidade inquestionável.

Agradabilíssimo, para se ter na estante. Vale muito a ouvida.

Faixas:



Disco 1
 
 01. Improvisation #1 4:51

 02. Antonia 6:14

 03. Entry Point 10:27

 04. Expansion 8:43

 05. Improvisation #2 10:07

 06. 80/81-Broadway Blues 4:23

 07. Orchestrion 15:59

Disco 2
 
 01. Soul Search 9:54

 02. Spirit of the Air 8:38

 03. Stranger in Town 5:39

 04. Sueno con Mexico 8:53

 05. Tell Her You Saw Me 5:17

 06. Unity Village 7:35
 
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