sexta-feira, 30 de julho de 2010

John Cage - American Sonatas and Interludes for a Prepared Piano (1946-48)

Prepare seu ouvido, amigo, que esse é difícil.
John Cage nasceu no começo do século passado, e calhou de morrer no final dele, com seus 80 anos. Seu pai era um inventor em Los Angeles, coisa que pesou em sua formação, como veremos. Quanto a sua mãe, jornalista, Cage dizia que ela era uma infeliz pessoa com senso de sociedade. Cage chegou até a escrever duas peças referidas a seus pais, nas quais trabalhou com um contraponto melódico descrevendo em “Crete”, e desenvolveu um tema mais vivo em “Dad”.
John começou a estudar piano no seu ensino primário, na sua quarta série. Foi sempre único, e sua música desenvolvia-se como nunca havia acontecido. Sempre um garoto de muita opinião, Cage veio a ingressar em uma universidade no início dos anos trinta, após viajar pela Europa. Nessa época, Cage foi ser discípulo de Arnold Schönberg, que pra quem não sabe, foi o ilustre austríaco “inventor” da técnica dos doze tons, a dodecafonia. Mas Arnold não ensinava a seus alunos o dodecafonismo, e Cage correu sua estrada própria.
Schönberg e Cage foram professor e aluno por dois anos, quando Cage se desvencilhou de seu mestre por uma “incompatibilidade ideológica”. Nessa época, John já estava desenvolvendo outras vertentes artísticas além da musical, como sua escrita e pintura.
No final da década de trinta, John começou a desenvolver uma face de sua música que muito foi renomada: sua relação com a dança moderna. Simpático com o movimento avant-garde, e conheceu grandes nomes na arte ocidental, como Max Ernst ou André Breton.
Nas décadas seguintes, John aderiu à cultura oriental, que muito o influenciou, inclusive, na obra “Sonatas e Interludes”, aqui presente. Esta e outras obras, como “4:33”, foram muito bem aceitas pelo público da época, e veio a fama nos anos sessenta. Cage aprimorou sua técnica em alguns aspectos nos anos consecutivos, abordando novos horizontes, até morrer nos anos noventa.
Bom, vamos falar de música, pois foi por causa dela que John Cage foi John Cage.
Cabe dizer que ele foi um inventor musical com diferentes personalidades. Certo momento optou pela música do acaso (depois chamada de música aleatória), que deixava fluir os momentos em um grande happening. Em outros momentos, optou pela composição matemática, pela contagem excessiva, e pelos padrões estudados, mas criativos.
O legado de Cage, entretanto, não está nessa forma de composição, mas usufrui dela. O que John fez foi uma revolução conceitual para a música. Transformou tudo que é sonoro em música, julgou todos ruídos como apropriados, e marcou ampliando os horizontes dos seus contemporâneos. Contudo, não pelo ruído que Cage é lembrado: é pelo silêncio. Cage, portanto, transformou tudo em música, até a ausência de sons. E esse foi, muito provavelmente, o conceito mais amplo de música já proposto. Bom. Não faltavam possibilidades para John Cage. Sua pesquisa foi extensa: ora ritmo, ora melodia.
Quanto á melodia, seu estudo do contraponto foi muito primoroso, e teve influencia do atonal passado de Schönberg além da vasta possibilidade que a quebra com a ortodoxia dos instrumentos melódicos lhe deu.
Já na parte rítmica, quando não foi tratada com o acaso, foi tratada numericamente. Em “Imaginary Landscape No. 1”, John decompôs a música em seções, os quais abordou com uma matemática estudada e contruida, sempre prezando pelo silencio. Essa estrutura rítmica de compassos contados e mudanças foram usadas também em “First Construction (in Metal)”, mas John ousou complicar ainda mais a estrutura, decompondo o número de bars em frações (mas mantendo a porporção inventada), fracionando, também, seu som. O resultado dessa experiência foi “Sonatas and Interludes”.
Nessa obra, Cage usou uma de suas invenções musicais mais renomadas: o piano preparado. Ele é, basicamente, um piano comum com objetos posicionados sobre ou entre as cordas. Pode ser difícil visualizar o instrumento, mas o que importa é o som, que é único.
É incrível como John Cage conseguiu trazer a amplitude do campo ideológico para suas composições, “físicas”. A expressão é diversa: ora encontramos sonatas com ar mais escuro (Sonata V), ora encontramos interlúdios com melancolia menor predominante (“Fourth Interlude”). Queria dar destaque a “Sonata XII”, que conseguiu alcançar primazia da fossa em ritmoe melancolia, tendo até momentos que lembram até a música minimalista (2:02-2:19 e 3:01-3:15). Para ilustrar o fracionamento da estrutura e da proporção de Cage, sugiro a Sonata V e a Sonata III.
Observando a carreira de Cage, é raro encontrar suas obrar interpretadas por ele próprio, e a lista de músicos que o acompanhou é tão enorme que não ouso nem estimar um número. O mesmo ocorre com “Sonatas e Interludes for a Prepared Piano”, que já encontrei, só aqui na Internet, 5 diferentes intérpretes em menos de um minuto. O escolhido para esse post foi Boris Berman, russo pioneiro que levou a música não ortodoxa para a Europa Oriental, tocando Stockhausen e Schönberg na Rússia.
Escute, por favor!

Faixas:

Sonata I
Sonata II
Sonata III
Sonata IV
First Interlude
Sonata V
Sonata VI
Sonata VII
Sonata VIII
Second Interlude
Third Interlude
Sonata IX
Sonata X
Sonata XI
Sonata XII
Fourth Interlude
Sonata XIII
Sonata XIV and XV, 'Gemini' (after the work by Richard Lippold)
Sonata XVI

Lincage nos comentários.

5 comentários:

Batistti disse...

http://rapidshare.com/files/190888138/Cage__Sonatas___Interludes_For_Prepared_Piano.zip

Barulho Max disse...

só perola mesmo hein, show de blog!

nathalieborges disse...

Oi!
Seu blog está me proporcionando uma viagem musical incrível...
este link também não abriu!
ínté
nana

nathalieborges disse...

http://www.4shared.com/get/5NpqCgCM/John_Cage_Sonatas.html

neste sim!!!

Anônimo disse...

O segundo link está imcompleto e o primeiro foi excluído. Se puderem reupar essa preciosidade, seria muito bom mesmo! Obrigado! Belo Blog!